Filigranas

 


 
Tendo sido alvo de criticas por parte de leitores (que dizem que não lêem este espaço - ainda bem para eles!) que me tornei demasiado politica, quiçá quase left wing, com teorias nada condizentes para quem gasta rios de dinheiro em sapatos (olha a inveja) e até um discurso desviante da minha habitual oratória muito mais virada para o mordaz (cuidado com a lingua que morreis envenenados!), resolvi responder com ourivesaria portuguesa. Mas fui mal compreendida porque as cabeças que me atiraram para o cepo inicialmente, apenas entenderam das minhas palavras uma outra: broches. Ora o que eu quería dizer eram filigranas. Aquele lindíssimo e delicado trabalho, porém resistente, dos nossos laboriosos ourives que se dedicam a unir fios e fios de ouro para produzir uma peça única. Assim, são os meus modestos textos. Fios de pensamento, todavia sendo o que é de minha autoria são o meu carácter, logo únicos. Não são alfinetes de peito, mas se quiserem também vos espeto.

Dizem que é novo

 

 
Pois dizem. Mas é só agora, na 1ª semana, que de seguida entra tudo no rame-rame de sempre e é igual ao que já passou. Até mesmo a esperança de alguma coisa melhorar. A ver vamos. Parece que a grande novidade é a restauração de alguns feriados que nos foram gamados indecentemente, e que vista a economia, resultou brilhantemente. Bravo! É como digo: Parece que é mas nada é novo, muito do cheiro de recauchutado, emendado, direi, arrepiado que se o povinho continua a ser apertado, mais dia menos dia, aparece-nos um Abril em estação inesperada e não sei, não sei, já não somos tão serenos quanto o ouvi dizer que éramos. Bom para nós que estamos fartos de ser enganados.
 

[de]Coração

 


Venho só dizer Boas-Festas e que haja boa vontade para que de facto para o Ano assim seja. Deste não ficam grandes saudades. Bem sei que ainda não terminou mas pelo andar da carruagem e do pouco lhe resta, grande mérito não o há-de salvar. Teve-se um obituário farto, bem sei que todos vamos, mas este ano a colheita levou nomes que me eram particularmente singelos e deles ficará a memória boa do seu trabalho e do meu prazer. Dizia eu que tinha chegado a 2015. Pois parece que apenas cheguei que de frutuoso, o ano produzido e o estado em que o País está foram tão magros que nem para as decorações de Natal houve empenho para as tirar das caixas. Fica a foto de revista. Estas ao menos, são sempre belas e repletas de presentes, como convém a qualquer capa conceituada de decoração.

Paris ou um novelo de tentáculos

 

Paris assustou-me. Deitou-me abaixo. Como quem está a dormir sossegado na sua casa, no quente das cobertas e é sobressaltado pelo pontapé na porta que tomba e assim se fica, desguarnecido, impotente, nú e volúvel à patifaria que nos queiram aplicar a bel-prazer. Foi assim que levei com as noticias das mortes dos inocentes, uma bota na cara, um soco no peito, e não tinha mãos para tapar a minha vergonha de ser humana como os demais que se fizeram à cobardia de se armarem de armas e as descarregaram em quem quería viver. Há os que querem morrer pela salvação e os que querem viver para se safar. E há os que não têm nada a ver com nenhum dos dois e são os que tombam  abatidos. Não sei rezar e tão pouco acredito em religião alguma, mas no homem há muito que sou descrente e este exemplo só veio acrescentar sublinhados à minha convicção. Paz, peço.

A independência dos feriados

 

 
Hoje 2ªfeira, devíamos nós Portugueses, estarmos todos a gozar o feriado, mas por real decreto do nosso PM vamos trabalhar. Sim, que isto de dar mais este dia para o bem da Nação é altamente produtivo e os cofres agradecem. Claro que os maduros que em 1910 fizeram a revolução e implantaram a República eram uns nabos, e só se deram a esse trabalho para ter direito a dizerem que a partir desse dia o dia era por conta e que nos vindouros, todos nos lembraríamos e viríamos para a rua dar vivas à senhora de seios ao léu por tão destemida e encalorada pose à frescura que se sente em Outubro. Nada mais. Acontece que os tempos mudam: nas perspectivas e na metorologia. O que foi importante e histórico vai às urtigas e neste feriado se assim ainda o fosse, íamos todos para a praia.
 

Cruzes na boca

 


A grande tristeza das compras é quando nos deparamos com a cruel realidade da opção. Sabe-se o que se quer e não há capital. Ou ainda: Só há dinheiro para adquirir um artigo e o que se quer é comprar tudo. Ou ainda: Como decidir entre três pares de sapatos quando se tem a absoluta certeza que os três são fundamentais? Pois é, o busílis está nos três e a questão não é virgem. De orçamento limitado e os olhos a baterem no objecto do desejo, tive de fazer contas à vida. Suspirei, suspirei e lembrei-me do velho ditado do mais vale um gosto que três vinténs, mas como a divisa é o euro e nestas coisas do prazer ou vai ou racha, saí da sapataria orgulhosa e sem nenhuma compra feita. Verdade seja dita: Ainda não parei de amaldiçoar o meu patrão, que se eu andar descalça a culpa é toda dele!